sábado, 12 de setembro de 2009


Entrevista com Frei Haroldo Pimentel de Miranda Junior, OFM
Por Frei Gustavo Medella, OFM
Pouco mais de um ano depois de concluir os estudos de Teologia no ITF, Frei Haroldo Pimentel de Miranda Junior, OFM, voltou a Petrópolis com intuito de terminar seu trabalho de final de curso, que havia ficado pendente. Quando chegou ao Instituto para dar início a esta última etapa de sua vida acadêmica, foi surpreendido pelo convite do diretor do ITF, Frei Sandro Roberto da Costa, OFM, para que também fizesse parte da primeira turma do Master em Evangelização e Missão. Frei Haroldo pensou um pouco e resolveu aceitar o desafio. Convites inesperados, aliás, fazem parte da história desse paraense de Santarém, nascido no dia 02 de agosto de 1979, em uma família de seis filhos. Seu engajamento na Igreja também ocorreu a partir de uma provocação repentina de uma senhora que lhe convidou a fazer parte de um grupo de CEB’s na Paróquia Cristo Libertador, onde iniciou sua caminhada eclesial. Desde lá, Frei Haroldo veio recebendo uma série de chamados, sempre respondendo com positividade, como ao ingressar no postulantado franciscano, em 1998, ao emitir os votos solenes, em 2004, e ao receber a ordenação presbiteral em 2008. Nesta entrevista, Frei Haroldo conta um pouco sobre sua caminhada vocacional e também fala da experiência desta segunda fase em Petrópolis, para a participação no Master em Evangelização.
Site do ITF - Conte um pouco da história de sua vocação.
Frei Haroldo – Tudo começou com um convite de uma senhora para participar de um grupo de Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s). Nesta época estava morando com meu pai, pois meus pais são separados. Eu morei até os 13 anos com minha mãe e, quando completei 14 anos, minha mão foi trabalhar e nos encaminhou para morarmos com meu pai. Então uma vizinha dele me convidou para participar de um grupo de CEB’s e eu fui. Na época cheguei a ficar um pouco constrangido, pois era o único homem do grupo, formado basicamente por senhoras. Os encontros eram sempre nas tardes de sábado, o que virou uma rotina para mim. Com o passar do tempo, tornei-me catequista do grupo de perseverança e, mais tarde, iniciamos um grupo de jovem na paróquia (Paróquia Cristo Libertador, em Santarém-PA, atendida pelos frades franciscanos). Com o engajamento pastoral na paróquia, fui aconselhado a ingressar também no grupo vocacional e mais uma vez aceitei o desafio. Nessa época minha vida era em função da igreja. Estava sempre às voltas com reuniões, encontros, celebrações, etc. Então, ao final de três anos de caminhada no grupo vocacional, cheguei à conclusão de que queria ser frade, pois eu via todo trabalho e o exemplo dos frades que trabalhavam na paróquia. Também li uma biografia de São Francisco que me deixou encantado e pensei: “É isso mesmo que eu quero!”, e entrei no postulantado franciscano em 1998.
Site do ITF - Como foi a reação da família diante de sua decisão? Era algo já esperado?
Frei Haroldo – Minha família nunca teve um engajamento na Igreja. Nem meu pai nem minha mãe têm o costume de frequentar a Igreja. Vão de vez em quando à missa, mas não participam de nenhum grupo. Em especial com relação a meu pai, a reação foi um pouco negativa porque, às vésperas de entrar no postulantado, eu prestei o vestibular para o curso de Pedagogia na Universidade Federal do Pará, para a qual era muito difícil passar. Fiz a prova sem esperança, mas fui surpreendido com minha aprovação. Meu pai ficou muito feliz e mandou que eu fizesse todos os procedimentos de matrícula, e eu fiz. Aí fiquei dividido, pois era no mesmo ano em que eu iria entrar no postulantado. Passei por um período de discernimento. Conversei com várias pessoas e o coração acabou falando mais alto. Estava muito animado a ser frade e decidi ingressar na Vida Religiosa Franciscana. Meu pai ficou um pouco triste, mas passou, e hoje ele compreende normalmente.
Site do ITF - Você concluiu os estudos de Teologia no ITF em 2007. Qual foi seu primeiro serviço logo depois de deixar Petrópolis?
Frei Haroldo – Como nós somos poucos em nossa Custódia (Custódia Franciscana de São Benedito, na Amazônia), quando um frade conclui a formação, cria-se grande expectativa, pois os trabalhos são muitos. Era época de capítulo intermediário e então os frades decidiram me designar para o serviço de promoção vocacional. Cheguei a iniciar um trabalho de visita às fraternidades e de acompanhamento de vocacionados, mas em meados de maio, nosso Custódio, Frei João Schwiters, perguntou a mim se eu teria disponibilidade para trabalhar em Jacareacanga, PA, na missão junto aos índios Munduruku, e eu me coloquei à disposição. Fiquei praticamente sozinho por um período de três meses. Ao final desta primeira experiência, chegou um outro frade para compor a fraternidade da missão. Fiquei até o final do ano nesta missão, visitando as aldeias, em um trabalho com forte tendência sacramental. Na minha opinião, nosso trabalho deveria estar mais voltado para a vida dos índios, a convivência, o engajamento nas lutas, mas há 100 anos temos esta estrutura mais sacramentalizada.
Site do ITF - Já no fim de seus estudos no curso Master em Evangelização, confrontando as informações que você recebeu com a realidade que você viveu lá na missão entre os índios, que possibilidades de mudança no foco pastoral para este serviço você consegue identificar?
Frei Haroldo – Para além do trabalho sacramental, vejo a necessidade de se realizar um trabalho que enfoque mais a luta pelo direito dos índios, a defesa das terras indígenas e também a defesa da natureza. Para que este trabalho se realize, é necessário que também os frades sejam mais flexíveis e mais abertos à missão e à experiência de convívio com os indígenas, sem grandes preocupações em levar uma estrutura já pronta e acabada.Site do ITF - E que lembrança você leva deste segundo período em Petrópolis?Frei Haroldo – É interessante que eu nem sabia deste curso. Meu plano era vir a Petrópolis neste ano para concluir minha monografia da Graduação em Teologia, que havia ficado pendente, mas quando cheguei aqui, o Frei Sandro Roberto da Costa (diretor do ITF) me propôs que eu fizesse também o curso Master e me convenceu. Entrei em contato com os frades da minha entidade e eles me autorizaram. De tudo que vivi neste período, nunca mais vou me esquecer desta convivência com confrades de diferentes países da América Latina e também de várias regiões do Brasil, pois este contato traz muita riqueza para o curso. Também é muito importante esta oportunidade de reflexão sobre a atividade de Evangelização, especialmente para quem está na ação pastoral há mais tempo, o que ainda não era o meu caso. Mas mesmo assim foi muito boa esta oportunidade de mais uma vez rever nossas práticas de evangelização. Por exemplo, no caso da missão com os indígenas, já está claro que não podemos repetir o modelo adotado no período da colonização. Temos que buscar um novo modo de convivência, pautado mais no aprendizado mútuo do que na imposição. O curso nos propicia este alargamento de horizonte para que possamos rever nossas práticas e agir de maneira diferente.

Um comentário:

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